sofrimento

A dor como um processo de compreensão

“A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”
 
Carlos Drummond de Andrade
 
É natural que tenhamos como prática na nossa vida fugir e manter-se distante de tudo que possa acarretar dor ou desconforto.
 
Não apenas agir dessa forma é um mecanismo de sobrevivência como também é um hábito reiterado e fortalecido culturalmente. Nosso sistema social, ocidental pós-moderno, claramente tem como princípio a busca do conforto e dos prazeres e, complementarmente, a repudia absoluta a tudo o que possa acarretar qualquer tipo de desconforto ou mal-estar. Pode se perceber que boa parte da ciência e tecnologia avança nesse sentido, se dedicando a tornar a vida cada vez mais confortável e prazerosa. Exemplos são muitos: remédios para aliviar a dor, e tão somente a dor, de uma enxaqueca; aplicativos que cada vez mais tiram nossa necessidade de gastar esforços em conhecer pessoas, pedir informações, arriscar, etc; Televisores cada vez maiores e mais nítidos, como se em algum momento fosse se chegar a uma perfeição de imagem, tamanho e conforto visual; bancos aquecidos; comidas repletas de açúcar; Internet Wi-fi e mais infinitas situações, ofertadas pelo sistema em que vivemos e que nos são apresentadas como solução dos problemas da vida quando não como um passo indispensável para a felicidade.
 
Evidentemente que não há problema nem um em desfrutar dos prazeres e confortos da vida, o que pode começar a gerar bloqueios e limitações no Ser é a maneira com que este enxerga os prazeres e as dores presentes em sua existência.
 
Estamos há muito tempo imersos em um sistema binário de compreensão do mundo, uma visão maniqueísta, que dispõe as coisas da vida como Boas e Ruins. Simples assim, existem pessoas boas e pessoas ruins, assim retratam as novelas, filmes, contos infantis. O Bem e o Mal, a sorte e o azar, a vitória e a derrota, o prazer e a dor, Deus e o Diabo. Uma classificação dogmática, inflexível, e também absolutamente limitada e obscura. Como se na perfeição criativa houvesse uma falha que permitiu a existência de “coisas” indesejadas, que sobraram no “mundo perfeito”. Não, a existência toda é perfeita, a compreensão é que é limitada.
 
Indo pela linha de raciocínio binária, e muito difundida, cai-se em uma armadilha de sofrimento e incompreensão, ora, se existem coisas que são ruins por si só, em certas situações não há o que fazer apenas se queixar da existência do “males do mundo”, sofrer e praguejar. Uma doença, uma morte ou acidente, é ruim por si só, é um fim, não um meio, restando apenas a lamentação. Ou seja, quando, por um baita azar do destino, acontece algo desconfortável e dolorido na caminhada da vida, para muitos apenas resta a angústia, reclamação e um vitimismo pra, quem sabe, alguém lá de cima sentir pena e intervir.
 
Ultrapassando essa visão antiga e limitada é importante lembrar constantemente que a existência toda é boa. As dores são pontos que a mente classificadora e condicionada não consegue compreender (ainda). Nada vem por acaso, a vida não é um acaso aleatório entre sorte e azar. Tudo o que ocorre tem sua importância, e muitas vezes apenas a dor é capaz de abalar o Ser o suficiente para enxergar coisas que este não estava conseguindo enxergar. Quantas pessoas têm sua compreensão melhorada exponencialmente após a cura de uma doença séria, falam sobre o quão besta é se estressar com coisas pequenas e passam a valorizar melhor a vida. A dor muitas vezes é o que te faz prestar atenção em você mesmo, como se o seu corpo ou suas emoções pedissem ajuda, por que você não está ali faz um bom tempo. Após um período desses, todo ser está melhor do que antes de entrar nele, se não está melhor, talvez o período ainda não tenha chegado ao fim, ou à luz da lição necessária. Os desprazeres e angústias fazem parte da vida na Terra, isso não deveria ser novidade nem uma. Mas muitos insistem em não aceitar o indesejado em suas vidas, e aí resistem e a resistência agrava a situação. A compreensão acelera o processo, a resistência o atrasa.
 
Imagine uma criança que vai tomar vacina num hospital, se ela manter a calma na fila, esperar a sua vez, agüentar a agulhada e ir embora, em menos de 10 minutos ela passou pelo que deveria passar. No entanto a mesma criança também pode, assim que receber a notícia em casa de que deve tomar a vacina, se jogar no chão ou agarrar algum móvel, até seus pais o colocarem a força no carro e tentarem em vão acalmá-la durante todo o caminho em que ela vai chorando e odiando o mundo, e chegando ao hospital, pode realizar novas tentativas infrutíferas de fugir do local, agarrar novos móveis, gritar cada vez mais alto, enrijecer o braço, movimentar mais de uma enfermeira para segurá-la até finalmente tomar a vacina e ficar emburrada o dia todo em razão da violência sofrida. Nestes dois exemplos, de atitudes comuns de crianças, e fazendo um paralelo com nossas crianças emocionais. Qual das crianças estamos sendo? A segunda pareceu realmente tola, não foi? Qual das crianças estamos sendo?
 
A dor faz parte da vida, engrandece, por mais que pareça desnecessária – nada do que ocorre é desnecessário – ocorre que a maioria das pessoas não foram educadas para compreender a dor, mas apenas para maldizê-la. Como falei no início do texto, nossa cultura pragueja contra a dor e bendiz os prazeres. No entanto, efetivamente não existe separação entre o que é bom e o que é mal, apenas no intelecto de cada um.
 
“Céu e inferno estão dentro de nós, e todos os deuses estão dentro de nós.”
 
Joseph Campbell – O poder do mito – p. 50
 
São algumas tribos indígenas (dentre outras civilizações antigas) que tem rituais de iniciação para meninos transformarem-se em homens da tribo. Um deles é o ritual da Tucandeira da tribo Sateré-Mawé. No ritual são feitas luvas de palha na qual são colocadas formigas da espécie Tucandeira, com os ferrões voltados para a parte interna da luva. O ritual consiste nos meninos da tribo colocarem suas mãos dentro das luvas e dançarem tomando as ferroadas dos insetos. A formiga tucandeira tem uma das picadas mais doloridas do reino animal. A tribo organiza o ritual, aquilo não é feito pelo mal. É uma lição, um desafio, uma prova, uma demonstração da realidade, uma auto-afirmação. Não acredito que depois do ritual os indiozinhos ficam lá chorando, culpando a tribo e maldizendo a existência em razão das ferroadas. Pelo contrário, o ritual primeiramente provoca a construção de uma crença sólida na capacidade de superar a dor. Em segundo imagino que também cria a necessária noção de que a dor faz parte da vida, não é “ruim” ou “do mal”, é uma fração da existência nesse plano.
 
Obviamente que não precisamos passar pelo Ritual da Tucandeira, ou outro ritual permeado de dor física para aprender isso. A dor faz parte da vida, melhor é aceitá-la, compreendê-la e usar as energias para superar os obstáculos, não ficar se remoendo ali, amaldiçoando e procurando culpados, isso desgasta a alma.
 
Mais um exemplo da história do mundo para a compreensão da dor pode ser aquele episódio ocorrido em 1963, no qual o Monge Budista, Mahayana Thích Quang Duc, auto imolou-se como forma de protesto contra o governo do Vietnã do Sul. Perceba o quão dolorido é uma queimadura no braço, e esse monge cobriu-se de querosene, ateou fogo em si mesmo e em Zazen meditou até seu corpo ser plenamente consumido pelas chamas. Sua capacidade de compreensão era tamanha que a dor do fogo não o tirava do seu centro. Ele sente a dor, certamente, ele também se revolta contra o sistema político, mas nada o tira do centro, nem o corpo em chamas, nem a vida ou a morte. Novamente “A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”.
 
O exemplo da consciência do monge muitas vezes pode parecer complexo, entretanto independente do sistema político do Vietnã em 1963, é preciso entender a dor como uma oportunidade na vida, e usar a energia toda para a criação da realidade desejada neste plano além de compreender que tudo o que ocorre tem sua razão de ser.
 
Este é apenas um ponto de vista, existem infinitos, pois cada Ser é um Universo.
 
Todos estamos no caminho certo.
 
Leonardo Bonifácio

Leonardo Bonifácio

Estudioso de espiritualidade formado em hipnose clínica.

 

Este post foi lido 749 vezes!

0 respostas

Deixe um comentário

Quer contribuir com seus comentários?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>