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As lições espirituais que descobri em Sense8

Acredito que como tudo na vida, se você “tem olhos para ver” e “ouvidos para ouvir” pode encontrar a espiritualidade e o sentido espiritual em muitos lugares e coisas diferentes. Aquele que está aberto pode se iluminar através de diferentes meios. Às vezes trocando o canal você vê um programa religioso e pode tirar dali uma pérola para seu dia, ou, em alguns casos, através de uma inusitada série.

Caso você viva em outro mundo, talvez ainda não tenha ouvido falar no seriado do momento: Sense8. Trata-se de 12 episódios dos criadores de Matrix – Andy e Lana Wachoswki em parceria com J. Michael Straczynski, produzidos pela Netflix, que giram em torno da misteriosa conexão empática existente entre 8 pessoas nascidas em diferentes partes do mundo. Em alguns momentos elas podem se ver, se tocar e interagir. Se você já viu a série ou não tem a intenção de vê-la, esse texto é pra você; se ainda estiver assistindo, volte depois.

Tudo começa com o próprio título: sense8, um trocadilho para “sensate”, uma palavra inglesa que designa “aquele que sente” e “aquilo que pode ser sentido”. Para nós, tarimbados no campo espiritual, sabemos que sensitivo ou médium têm tudo a ver com esse campo das sensações, das ligações e influências psíquicas. Todos somos emissores e receptores de sinais em maior e menor grau, e é nosso campo sensorial que consegue decodificar a isto.

O número 8 é sagrado em várias religiões, no Cristianismo é o número das bem-aventuranças, símbolo do infinito (o eterno ciclo da vida) e em tradições orientais um numeral de sorte. Por isso é com ele que iremos conhecer os personagens centrais e algumas das principais lições que podemos descobrir em suas histórias.

1. Will Gorski – Ter Fé em Si Mesmo

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Will é policial, vive em Chicago nos EUA. Na infância ele podia ver uma garotinha que havia sido parte de um crime nunca solucionado. Ele é um dos primeiros a entender como a ligação empática funciona, e que é possível uma troca de “habilidades” entre os membros do grupo. Com sua tenacidade, até o final ele tenta ajudar na resolução dos problemas, e mesmo a delicada situação infantil e problemática que viveu, não o faz ser derrubado nem desistir daquilo que é certo, como quando ajuda o jovem delinquente (as autoridades questionam como ele se sentirá assim que o garoto se salvar e matar alguém lá fora). Em muitos momentos não temos ninguém em quem acreditar, o mundo pode dizer que somos loucos ou estamos errados, mas nestas horas precisamos perseverar, ter fé em nós mesmos, e ser os primeiros e ficar do nosso lado. Só assim teremos felicidade e sucesso.

2. Nomi Marks – A Coragem de Ser

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Nomi é hacker profissional, ativista dos direitos LGBT, vive em São Francisco nos EUA. Ela é uma mulher transexual e tem uma namorada (isso mesmo) chamada Amanita. Essa personagem tem uma mãe que a trata pelo nome masculino, quando ainda não havia feito sua transição para se tornar uma mulher, e que não aceita sua condição. Num momento da série ela é internada com autorização da família para um procedimento de lobotomia que a personagem não precisa e nem quer. Noutro momento ela divide com Lito, um homem homossexual vivendo no armário, a história de quando fazia Natação obrigada pelo pai e sofreu violência dos meninos que frequentavam o vestiário. Nomi nos ensina a necessidade de sermos corajosos, de não deixar o medo nos conter, de irmos em frente apesar dele e cruzarmos a linha que ele tenta nos impor. O principal, o medo ser quem somos. Se ser uma pessoa transexual é algo distante, pense quantas vezes você não falou o que pensava, se obrigou a fazer uma visita que seu coração não queria, deixou de comprar algo porque “o que os outros iam pensar?”. Chorei muito com a história de Nomi pois também sou uma mulher transexual, e sei o quanto o ser humano pode ser violento com quem é diferente (e o irônico é que ser humano é ser diferente), mas ser quem somos, ultrapassar os medos, é o único caminho capaz de nos trazer felicidade.

3. Capheus – Sorte é uma Atitude

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Capheus é um simpático motorista da lotação pintada com a figura de “Van Damn”, vive em Nairóbi no Quênia. Apesar de sua mãe sofrer com as medicações adulteradas para AIDS, e viverem num lugar semelhante às nossas favelas, o rapaz sai sempre de casa com um sorriso no rosto e diz “hoje é meu dia de sorte”. Em um dado momento, vendo filmes de seu ídolo Jean-Claude Van Damme, faz contato empático com a indiana Kala, ela lhe pergunta por que razão em lugares pobres como na casa dele as pessoas podem não ter cama (ele dorme no sofá), mas a televisão grande é essencial. Ele responde que a cama os mantém na realidade de pobreza, e a televisão os tira. Este é um dos personagens que mais vezes tem a vida salva pela troca de habilidade com o grupo, e mesmo correndo o risco sem saber se conseguiria, opta pelo que é o correto para si, e confia. Ter sorte é estar no seu melhor, fazer o que você pode, e confiar de uma forma inabalável no invisível, em alguma força que poderá estar a seu lado. Com uma boa atitude sua energia brilha, e vida sorri com você.

4. Kala Dandekar – Deus Nos Ouve

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Kala é farmacêutica, praticante do hinduísmo – devota de Ganesha, noiva de um homem quem não ama, vive em Mumbai na Índia. Uma de suas primeiras cenas é quando leva uma oferenda ao templo do deus com cabeça de elefante, senta-se diante da representação dele, e conversa com ele como conversamos com um amigo. Julgo uma das cenas mais tocantes da série… Talvez outros não vejam nela nada de especial. Porém, Kala mostra um pouco do que Jesus tentava ensinar quando dizia como deveríamos orar. A melhor oração é esta conversa franca e aberta com aquilo que você chama de Algo Maior (Deus, Universo, etc.), sendo você mesmo, expondo o que sente, e dizendo o que precisa. A melhor fórmula é a simplicidade e a força da intenção. A personagem tenta seguir aquilo que sua cultura diz ser o que uma mulher deve fazer… Mas está claro em seu olhar e na sua expressão o quanto há de honestidade, mesmo quando sua boca não pode falar ou quando é levada a fazer o que não quer. De alguma forma, parece que nas situações que acontecem, algo realmente responde a ela. Esse algo não fala numa voz, mas através dos acontecimentos para dizer que alguma coisa está ouvindo suas preces.

5. Sun Bak – Escolher Ser Livre

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Sun é filha de um grande empresário, tem mestrado em economia, trabalha na empresa, mas nas horas vagas pratica kickboxing, vive em Seul na Coreia do Sul. Quando era criança, sua mãe pediu que cuidasse do pai e do único irmão. Adulta, ela está ciente de que o irmão arquitetou desvios enormes de dinheiro que irão resultar na prisão dele e no fechamento de tudo, o nome da família será motivo de vergonha a menos… Que ela, uma mulher, assuma a culpa. E ela assim o faz. Em diversos momentos ela ajuda os outros personagens a sair de enrascadas, com pancadaria sobrando para todos os lados. Num determinado momento ela diz que coloca tudo o que sente, toda sua paixão, tudo que é ruim, em seus punhos, e luta. Entendemos que isso a torna livre, deixar-se mover, colocar tudo de si no momento… Doar-se. Mesmo encarcerada, percebemos que Sun se torna mais livre do que antes, porque finalmente rompe com uma vida ditada pelas regras e convenções sociais e familiares. Permitir-se seguir seu coração, encontrar paixão no que é seu, lutar pela vida, é ser livre. Em diversos momentos esquecemos de nossa escolha, e optamos em sermos escravos de uma coisa, um vício, uma situação, um companheiro ruim, uma família, um trabalho… A libertação está em nossos mãos (e punhos – lute!).

6. Wolfgang Bogdanow – Ser Bom Para Si

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Nosso Wolf é um chaveiro e arrombador profissional, de uma família mafiosa, vive em Berlim na Alemanha. Talvez nosso anti-herói, um personagem altamente controverso. O que me chamou a atenção nele é que ele faz de tudo: rouba, mata, e até faz xixi na sepultura do pai que era um grande canalha. Será que você é bom pra você? Ser bom pra você mesmo muitas vezes não quer dizer ser santo ou “bonzinho”. Às vezes ser bom para nós mesmos vai requerer dizer um grande “não”, ou brigar sim para impor um limite, e até mesmo ser bastante desagradável. O correto pra você é individual, pode não ser o mesmo que para mim, pode não ser nem o mesmo que foi ontem. Defender-se é fundamental para que o Universo também nos defenda, ter-se em consideração – não varrer o descontentamento pra baixo do tapete em nome de uma falsa paz enquanto você não consegue dormir atormentado, para não ter que brigar ou se indispor. O personagem na infância não consegue cantar numa apresentação de escola enquanto o pai ri inescrupulosamente dele na plateia. Adulto, bêbado, numa noite muito louca, ele se esbalda no karaokê.

7. Lito Rodriguez – Aceitar a Realidade e o Que Tem Significado

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Lito é um grande ator, homossexual não-assumido, vive na Cidade do México no México. Tem um namorado que mantém escondido enquanto tenta posar para a mídia que é heterossexual. Acontecimentos difíceis colocam em cheque suas atitudes, e ele é levado a escolher. Na conversa com Nomi, ele percebe que há coisas na vida que são muito mais importantes do que fama ou reputação. O começo de toda mudança de situação é a aceitação da realidade, sair da ilusão ou do fingimento, “o que é, é” – este é um bom mantra por mais amargo que seja o que ele te fará engolir. A seguir, prestar atenção no que tem significado para você, o que é essencial em quem você é, na sua vida. Há coisas que mantemos por vaidade, e até escolhas que fazemos, porém em algum momento seremos levados a decidir… Ou seremos felizes para nós e por nós, ou infelizes para agradar os outros. Tudo tem ganhos e perdas… Mas ganhar e perder só vale a pena se for por uma causa que tem sentido para você. O que tem significado é o que toca, e é importante para seu coração, e o resto é, e deve ser, apenas o resto.

8. Riley Blue – A Superação

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Riley é DJ, é islandesa mas vive em Londres. Foi uma das personagens com quem mais me identifiquei. Apenas nos últimos episódios descobrimos que quando era mais jovem teve um namorado que amava, e estavam prestes a ter uma filha, quando um acidente mudou tudo. Traumatizada e sozinha, ela deixa de dirigir, muda-se de país pois se acredita amaldiçoada, e embarca no mundo da noite e das drogas para sobreviver. Sua interpretação transmite a fragilidade da personagem. No final ela se vê presa nas imagens do passado e precisa decidir se continuará lá ou conseguirá superar para salvar seu grupo. Só quem já passou pela experiência de quase ter tudo e perder, irá entender a profundidade de Riley e da sua experiência. Ela não possui um talento claro, uma habilidade, mas é através dela que os personagens aparecem todos unidos pelas primeiras vezes… Ela tem algo que os reúne e une num objetivo comum. Podemos ter sofrido, sido quebrados, queimados até às cinzas, mas a vida não irá parar e nem voltar… O passado, o que há de bom e ruim que tenha acontecido nele, pode ser uma difícil prisão. Participar da vida e continuar vivo muitas vezes requer a capacidade de superação, que não é fácil, mas pode ser uma potente redentora.

0. Angelica Turing – O Sacrifício

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Decidi falar dela porque o zero é o grande vazio, o espaço que dá origem a todos os infinitos. Ela não faz parte do grupo mas é aquela quem dá a luz à manifestação do elo psíquico entre os oito personagens centrais. Conhecemos Ange no primeiro episódio, cometendo suicídio para proteger seus “filhos”. Se queremos chegar a algum lugar, por vezes teremos de nos sacrificar um pouco: cometer erros, fazer o que é um pouco chato, ter disciplina, e até nos privar por algo maior que nossa alma pede.

Conclusão

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O grande ensinamento destas oito pessoas, que mais tarde entendemos não são as únicas, é que estão ligadas de uma forma sugerida ser anterior ao homem moderno. Um tempo onde o ser humano era capaz de sentir seus semelhantes e o meio em que vivia, ser parte e uno com eles. Como um dos personagens fala: “matar é fácil se você não sente nada”. Basta olhar para a vida atual e encontraremos múltiplos exemplos de problemas gerados pela nossa desconexão interpessoal e ambiental. A desconexão gera o não-sentir, o descaso, a indiferença. Se você deseja que as pessoas se conectem e trabalhem por uma boa causa, ajude-as a sentir, a se importar, a encontrar o sentido por meio de uma ligação com aquilo que lhes é importante, essencial. Isto é espiritualidade.

Resgatar a conexão com a fonte da vida, com a humanidade, com o mundo em que habitamos, é uma inspiração que Sense8 nos sopra. Cada ser é uma parte funcional nesta grande teia na qual habitamos hoje.

Não estamos sozinhos, somos um.

nova-rafaelNova Rafael
É sensitiva, naturóloga, arteterapeuta, escritora e colaboradora do Movimento PENSO POSITIVO.
E-mail: rafael@novarafael.com

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