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Quando você se liberta da pressa

Quando foi que eu comecei a ter pressa?
 
Onde essa pressa nasceu?
 
Acho que eu não consigo me lembrar de estar fazendo algo sem pressa.
 
O normal para mim é andar rápido. É comer rápido. É falar rápido. É dirigir e sem me dar conta, estar acima do limite de velocidade. É escovar os dentes rápido. Tomar banho rápido.
 
Mas esses dias comecei a olhar para essa pressa. E conversar com ela.
 
Por que é que eu tenho pressa?
 
E ao observar minha pressa, fui lembrando de algumas cenas.
 
Quando eu era pequeno, chegava em casa depois da escola e queria fazer a lição de casa logo para poder brincar.
 
E se brincava antes da lição, acabava tendo que fazer rápido para conseguir dar tempo de terminar.
 
Eu comia rápido para dar mais tempo de aproveitar o recreio ou o intervalo do almoço.
 
Eu escovava os dentes rápido para ficar livre logo.
 
Eu gaguejava quando era mais jovem e falava rápido para terminar de falar logo e não correr o risco de gaguejar. Quanto antes eu terminasse de falar, mais livre do risco de gaguejar eu estaria.
 
Eu fazia as provas o mais rápido que conseguia porque quem entregava a prova podia sair da sala e conversar lá fora. E eu queria muito sair daquela sala.
 
No futebol, passava a bola logo para não correr o risco de perder a bola e ser xingado pelo time.
 
Eu cresci, tirei carta de motorista e passei a dirigir rápido pra sair do trânsito logo, ou para chegar logo onde quer que eu estivesse indo.
 
No trabalho, fazia as coisas rápido para mostrar pros outros que eu era rápido, que aprendia rápido e que produzia muito.
 
Cheguei a querer terminar o sexo logo para não correr o risco de “falhar” no meio.
 
Em um evento eu sempre queria ir embora antes, para não correr o risco de ser o último, de ficar no silêncio.
 
Pode parecer bizarro. Enquanto escrevo, sinto um misto vergonha, culpa, confusão.
 
Porque a pressa foi meu modo padrão para a vida toda.
 
Eu achava que era porque nasci e cresci em São Paulo. Mas conversando com a pressa, observando profundamente o que acontece comigo enquanto sinto pressa, vejo que é algo mais profundo.
 
O que está por trás da pressa é o medo.
 
O medo de falhar. Medo de errar. Medo de ser criticado. Medo de ser sacaneado pelos outros. Medo de ficar sem brincar. Medo de perder a oportunidade. Medo de olharem nos meus olhos e descobrirem quem eu sou de verdade. Medo do silêncio. Medo de ficar comigo mesmo. Medo de não ter dinheiro suficiente. Medo da solidão. Medo de não ser amado.
 
Todos esses medos estavam escondidos por trás da minha pressa.
 
Mas hoje eu os descobri. Eu os revelei. E quando os revelo, eu coloco luz neles. E quando vem luz, eles se dissolvem. Vão embora.
 
Eu agradeço a pressa. Por tudo que fez por mim. Por ter me protegido. Por ter cuidado de mim. Por ter me ajudado a ter a noção de que estava aproveitando a vida melhor.
 
Mas hoje eu não quero mais viver com pressa.
 
Não quero mais ter que terminar nada logo.
 
Eu vivo no presente. Gosto do que faço. Gosto da vida que levo. Sustento minhas escolhas. Tenho firmeza no que acredito. Não preciso provar nada para ninguém. Eu banco quem eu sou.
 
Quanto mais verdadeiro eu sou comigo mesmo, menos coisas para me desmascararem existem.
 
Quanto mais me fortaleço, menos medo da crítica eu tenho.
 
Por isso não tem motivo para querer sair daqui, para terminar logo.
 
Eu estou aqui e vou ficar aqui. Sem pressa. Aqui e agora. Curtindo cada detalhe da existência. Sentindo cada respiração e pulsar de cada batida do meu coração.
 
Aqui.
 
Agora.
 
Eu sou.

 

gustavo-tanakaGustavo Tanaka
Autor do livro 11 Dias de Despertar, empreende em startups que buscam criar uma nova economia e colaborador do Movimento PENSO POSITIVO.
Email: gutanaka@gmail.com

 

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