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A invasão do ego e a construção da autosabotagem

Quando o ego doentio sente um certo perigo, ele automaticamente procura uma distração, e se esforça para proteger o seu território, que agora corresponde a todo o seu ser. Mesmo que ele comece sendo apenas uma parte do seu ser, devido à sua natureza enganadora e à sua incapacidade de distingui-la do seu eu autêntico, que abrange tanto o ego quando a sua essência eterna, ele se torna o único “você” que você conhece.
 
Embora às vezes você possa ter um momento de extrema lucidez, no qual deseja fazer uma escolha melhor, sem perceber você compara essa sabedoria com a voz do seu ego ferido. E é muito mais provável que faça a pior escolha, pois o seu ego ferido já causou um estrago tão grande em você, interiormente, que a voz dele é a única que consegue ouvir.
 
Ela grita: Como posso ter certeza? Não posso confiar em ninguém. Não há ninguém que me apoie. Este é um mundo cão. Que se danem! Eu trabalhei duro para ter o que tenho. Ninguém me facilitou as coisas! Neste mundo nada é de graça. Só existem duas certezas na vida: a morte e os impostos. Já fui muito prejudicado; não vou me arriscar mais. Ninguém sabe o que sofri. Ninguém liga para mim. Não vai fazer diferença mesmo. Tenho todo o direito de ter o que eu quiser. Mas que bando de larápios! Sou muito melhor do que eles. Veja até onde cheguei! Isso não serve para mim. Fizeram a cama, agora que se deitem. São um bando de idiotas, eu não preciso ouvir o que dizem. Estou conquistando o que mereço.
 
A voz do ego ferido, como uma fera acuada, ruge tão alta fora de hora que abafa a voz mais elevada da razão, e força você a ignorar o seu eu superior. Ele tem que fechar a porta para a totalidade de quem você é e concentrar-se no que está errado ou no que está faltando. Quando o ego está ferido, ele se recusa a ver, ouvir ou perceber qualquer verdade que não seja a que ele mesmo declara. Esse é o seu principal mecanismo de defesa. Pois, para sobreviver, ele precisa estar certo no seu modo de se ver, de ver as outras pessoas e de ver o mundo em geral. Ele precisa, sem sombra de dúvida, procurar e criar realidades, circunstâncias e situações que confirmem as suas crenças sobre o mundo. A função do ego ferido é agora se proteger a todo custo e bloquear qualquer coisa que o faça sentir a vergonha e a dor profundas que originalmente criaram a sua ferida.
 
Quando o ego ferido assume o comando, ele se torna um fio desencapado, perigoso e fora de controle. Uma vez ferido, o ego perde a sua capacidade de distinguir fato de ficção, realidade de drama. Como um mecanismo de proteção, o ego ferido passa a se concentrar em si mesmo. Se ele está dirigindo o espetáculo, ou a sua vida inteira, é porque conseguiu mascarar a sua natureza superior, desconectá-lo de pelo menos metade de quem você é.
 
O ego é um guerreiro magistral e tem muitos mecanismos para garantir a sua vitória. Ele trabalha diligentemente para proteger o seu território e para esconder os aspectos superiores do eu, de modo que ele possa prevalecer. A principal defesa do ego doente – que acaba sendo a sua derrocada – é a arrogância. “Eu sou maior e melhor”, ele diz. “As regras não se aplicam a mim. Posso fazer o que quero e ninguém vai me pegar. ” Em toda sua prepotência, ele grita, “Ninguém vai me dizer o que fazer! ” Ou até pior: num leve sussurro, ele assegura, “Ninguém vai saber. Ninguém vai descobrir”.
 
Essas são, todas elas, mensagens do ego doente e a voz da separação. O ego ferido realmente acredita que pode agir de acordo com as próprias leis e sair ileso. É isso o que ele faz – eis o nascimento da autossabotagem. Se as regras não se aplicam a mim, então posso e farei o que quiser e quando quiser.
 
Enquanto a função do ego saudável é nos proporcionar uma identidade separada e única, o ego doente leva isso um passo adiante e tenta provar que somos únicos e especiais mesmo quando violamos a nossa integridade, desrespeitamos os limites das outras pessoas ou infringimos a lei.
 
Quando o ego ferido está no comando, o mundo exterior é visto apenas como algo que serve para preencher as suas necessidades e fazê-lo se sentir melhor. As outras pessoas são consideradas como curativos em potencial para as suas feridas, como problemas a serem resolvidos ou como obstáculos a tirar do caminho.
 
O ego ferido, agindo separadamente do todo maior, é agora como um peixe fora d’água – ele salta incontrolavelmente, tentando encontrar o caminho de volta a sua segurança. Perdido e sozinho em seu senso de separação debilitante, ele busca maneiras de dar sentido à sua vida.
 
Mas, em vez de se ver como parte de um todo maior, ele só consegue ver o que não tem. É incapaz de ver a vida como um todo e só consegue enxergar a partir da perspectiva estreita do eu limitado – sozinho, pequeno e aparentemente abandonado.
 
Na tentativa desesperada de recuperar o controle, ele toma para si o papel de liderança e se lança como a estrela do espetáculo. De repente, a parte mais desesperada, deficiente e ferida de nós assume o controle. A invasão maciça do ego ferido teve início.
 
Debbie Ford
 

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