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As causas do sofrimento

Neste texto decidimos analisar uma a uma aquilo que entendemos como sendo as principais causas do sofrimento humano. O sofrimento existe e, obviamente, ele tem uma causa ou uma origem. Esse é um tema muito complexo, com milhares de possíveis desdobramentos. No entanto, algumas reflexões sobre alguns pontos-chave deste tema podem nos ajudar a ter uma visão mais exata sobre a origem de qualquer tipo de sofrimento. Vamos enumerar algumas dessas causas:
 
O primeiro ponto a considerar diz respeito a uma ideia que está na base da filosofia budista sobre o sofrimento. Essa ideia ou princípio diz que tudo o que existe na vida humana é, de uma forma ou de outra, um sofrimento. Tanto o corpo físico quanto o corpo emocional são eternos pedintes; estão permanentemente demandando algo, seja comida, descanso, tranquilidade, amor, diversão, prazer, etc. Nosso corpo físico e nossas emoções estão sempre insatisfeitos, e passam a vida inteira desejando ter algo que não tem. O corpo físico sempre busca por comida, abrigo, prazer, conforto, etc. O corpo emocional sempre busca por afeto, atenção, carinho, amor, e outros sentimentos.
 
Quando um desejo é satisfeito, imediatamente já se cria outro desejo que anseia ser suprido. O ser humano é um ser em permanente falta, constante ausência. Isso ocorre porque em todo lugar deste mundo há limites, e quando há um limite, há sempre uma tentativa, um anseio de se superar esse limite e nos complementar de alguma forma. Por isso se diz que a vida humana é toda ela uma forma de sofrimento, ou seja, uma tentativa constante de preencher o vazio de algo que carecemos.
 
O segundo ponto nos demonstra que na vida humana tudo sempre se alterna em par de opostos, e por esse motivo, sempre vamos oscilar entre o bem estar e o mal estar, sendo impossível conceber uma vida inteira preenchida apenas pelo bem estar. Essa condição nos faz perceber um processo psicológico predominante em toda a humanidade: sempre que buscamos o prazer, mais a dor nos afeta; sempre que buscamos o silêncio de qualquer maneira, mais o barulho nos assola; sempre que buscamos o bem estar, mais sofremos quando perdemos esse bem estar e caímos numa condição de mal estar. Isso significa que, sempre que buscamos um oposto, o outro se torna mais presente. O esforço por se viver em apenas um dos lados da moeda, acaba trazendo o outro lado com mais força. Tudo aquilo que queremos evitar parece se apresentar de forma mais patente a nossa mente. Esse é o exemplo do homem que quer a todo custo evitar ser assaltado. Ele pensa tanto no assalto por conta do medo constante que acaba por fazer com que o assalto seja algo permanente em sua mente e em sua vida. Por esse motivo, o desejo de experimentar apenas o prazer nos faz temer a dor, e provoca a sua imediata presença em nossa mente e comportamento. Dessa forma, a alternância entre os opostos da vida, ter e não ter, prazer e dor, alegria e tristeza, ganhar e perder, tudo isso é uma das causas fundamentais do sofrimento, simplesmente porque ninguém é capaz de se manter num dos polos com força sem que o outro volte com a mesma força impressa. Quando empurramos um pêndulo para um dos lados com intensidade, a tendência natural e mecânica é que ele retorne ao outro lado com a mesma intensidade. Assim também é com tudo na vida humana. Dessa forma, quem busca a ausência de sofrimento torna impossível não ser acometido pelo sofrimento.
 
O terceiro ponto da causa do sofrimento é a máxima que diz: quanto mais desejo algo, mais sofro com a sua perda. Essa é uma característica de praticamente todas as formas de sofrimento. O desejo por algo que fazemos repetidamente gera o apego, e o apego cria uma condição em que a perda de algo gera tristeza, ausência e sofrimento. Quanto mais desejamos um sorvete, mais sofremos por não tomar esse sorvete; quanto mais desejamos ficar com uma pessoa, mais sofremos quando essa pessoa não está presente; quanto mais desejamos ir a algum lugar, mais sofremos por descobrir que não podemos estar nesse lugar; quanto mais desejamos ter um carro de luxo, mais sofremos por não tê-lo. A maioria das pessoas procura resolver esse problema do desejo e do apego tentando obter ou usufruir, pelo maior tempo possível, o seu objeto de desejo. Elas pensam “Se eu tiver um carro de luxo, eu não sofrerei por não tê-lo”. Isso não faz sentido por três razões: em primeiro lugar, o próprio desejo já é, por si só, um sofrimento, posto que ansiamos por algo que nos falta. Em segundo lugar, mesmo obtendo esse carro, qualquer dano que ele por ventura possa sofrer nos fará sofrer pelo dano. Em terceiro lugar, mesmo tendo a posse do carro, apenas o pensamento de que um dia poderemos perder o carro já é também fonte de sofrimento. O fato é que inegavelmente um dia não poderemos mais ter ou usar um carro de luxo, seja por motivo de doença, seja por motivo de velhice, seja por perdas financeiras, pela morte, ou por qualquer outro motivo. É como se diz no axioma: “Quando não tenho, sofro pelo desejo de ter, e quando tenho, sofro pela possibilidade da perda”. Quanto mais desejamos algo, mais sofremos por não ter esse algo, e, se temos, mais sofremos pela possibilidade de perder o que desejamos. O nosso desejo não precisa ser necessariamente de algo material, pode ser também algo imaterial, como por exemplo um conhecimento, um dogma religioso, a admiração por um líder espiritual, etc. Quantas pessoas não sofrem pela decepção de conhecer os erros de um líder espiritual que tanto apreciam? Ou quantas pessoas não sofrem por perceber que suas crenças mais caras não passavam na verdade de ilusões nas quais a pessoa prefere acreditar? Quanto mais desejamos a posse da verdade, mais nos decepcionamos em saber que a verdade não pode ser possuída por ninguém, mas apenas ser vivida pelo que ela é em essência.
 
O quarto ponto do sofrimento ocorre quando se confunde a aparência com a realidade. Esse ponto inclusive engloba todos os outros. Na verdade, todos esses pontos estão interligados e todos são causas potenciais do sofrimento. Em toda a vida humana vemos pessoas confundindo a aparência com a realidade, ou tomando o real apenas pelo que parece ser real.
 
Obviamente que um dia, mais cedo ou mais tarde, vamos descobrir que a aparência não era real, e a frustração tomará conta de nós, gerando sofrimento. Sempre que o castelo de cartas da ilusão do mundo material revela sua irrealidade revestida pela capa da aparência, o resultado é o sofrimento, especialmente para as pessoas que muito acreditaram e muito desejaram que o aparente fosse o real. Quem já não sofreu por descobrir que o parceiro ou a parceira não era o que estávamos pensando? As embalagens não revelam o conteúdo, assim como a observação de uma embalagem de vinho não nos faz sentir o sabor do vinho. Descobrir e aceitar o que está por detrás das aparências é frequentemente uma das melhores formas de nos libertamos do sofrimento. Mas quando desejamos que a ilusão seja real, sofremos por ver nossos desejos não serem atendidos.
 
Desejamos que o envoltório seja a essência, e sofremos por descobrir que o real era o real, por mais estranho que isso possa parecer.
 
O quinto ponto está relacionado com um processo psicológico básico comum a quase toda a raça humana: a expectativa de como as coisas deveriam ser. A maioria das pessoas vive boa parte da vida criando expectativas de como elas devem ser, como devem se comportar e como as coisas precisam ser. Criam expectativas de que precisam passar num concurso, precisam ter os melhores cargos, precisam ser pessoas sem erros, com bastante dinheiro, desejando projetar uma imagem de sucesso, eficiência, correção e excelência. Nesse processo criamos um” ideal de perfeição”, baseado em nossas próprias expectativas de como as coisas da vida deveriam ser e de como nós mesmos devemos ser. Mas sempre que ficamos esperando que algo ocorra, e esse algo não ocorre, nos frustramos e sofremos. Quanto mais expectativas criamos para que algo seja como acreditamos que deva ser, mais a vida nos mostra a dura realidade (que só é “dura” quando nos negamos a aceita-la). O sofrimento é sempre proporcional a quantidade de expectativas que colocamos em algo ou alguém, sempre baseado num ideal de como algo ou alguém deve ser. E dentro desse processo sempre surge uma necessidade interior de sermos tal como criamos em nosso ideal, e se iniciam então o processo da cobrança. Muitas pessoas sofrem demasiadamente pela cobrança que fazem a si mesmas para serem exatamente como imaginam que devam ser, da mesma forma que cobram os outros como eles devem ser. Muitas vezes, as cobranças vem de um ideal imaginado, mas também de um medo das consequências da não concretização do nosso ideal. “Se não for bom no trabalho, serei demitido e passarei fome”. “Se eu errar, todos pensarão que sou um fracasso”. “Se eu não for popular, ficarei sozinho”. “Se eu não for bom, não serei amado”. Todas essas crenças vêm de um ideal de vida criado que gera expectativas de como as coisas deveriam ser e passa a nos gerar sofrimento sempre que nossas expectativas não são atendidas. O ato de esperar algo sempre gera um anseio que causa sofrimento em maior ou menor grau. Por isso que no Bhagavad Gitá Krishna fala sobre a necessidade da ausência total de expectativas sobre as consequências de nossas ações. Viver sem esperar nada é viver no presente tal como ele é, sentindo a vida fluir em perfeita harmonia.
 
O sexto ponto se refere a um processo semelhante ao anterior, mas com algumas peculiaridades. Este é o jogo da comparação. A comparação é frequentemente uma grande causa de sofrimento. Quando vemos alguém de destaque nos negócios, feliz no casamento, com dinheiro, com fama, sendo admirado pelos outros, tendemos a nos comparar com essa pessoa. Muitas vezes pensamos “Ele está bem, enquanto eu estou mal”.
 
Ele está feliz, e eu aqui continuo infeliz”. “A maioria das pessoas na minha idade já tem casa própria, e eu ainda pago aluguel”. “Fulano tem o melhor carro, e eu nem carro tenho”. Essas comparações, obviamente, nos levam a desmerecer aquilo que temos, acreditando sempre que os outros estão melhores do que nós. O curioso dessa estória é que a maioria das pessoas se compara sempre com quem está supostamente melhor, e não com quem está pior. Todavia, tanto a comparação com o “melhor” ou com o “pior” pode nos fazer sofrer, pois sofremos quando nos sentimos para baixo de quem está melhor, e também sofremos por ver alguém em pior situação e em evitar a todo custo cair na mesma situação dele. É preciso entender também que qualquer parâmetro de comparação com os outros é arbitrário, primeiro porque não podemos saber se a pessoa está realmente bem (tudo pode ser apenas aparências), segundo que, mesmo que a pessoa esteja bem, isso não significa que ela ficará bem eternamente (uma hora esse estado vai acabar), terceiro que o importante não é a condição que a pessoa se encontra, mas sim o quanto ela tira de alegria em sua vida (ela pode aparentemente estar bem, mas no fundo estar triste, e aqui entra o que dissemos sobre confundir as aparências com a realidade). De qualquer forma, é preciso entender que a comparação é sempre prejudicial ao nosso bem estar psicológico, pois ela quase sempre tira o foco do que somos e passa a observar o que os outros são. Passamos a nos definir em função dos outros, e por isso, sofremos quando não conseguimos ser como os outros parecem ser.
 

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