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O bom e o mau em nossas vidas

A maioria das pessoas passa pela vida sem questionarem a si mesmas o significado dos opostos bem e mal, certo e errado, positivo e negativo, etc. Vamos nessa oportunidade explicar vários pontos relacionados a existência do bem e do mal na vida humana, para que cada pessoa possa compreender melhor esses temas que são universais em nossa cultura.
 
O primeiro ponto diz respeito as noções de bom e mau como algo relativo e condicionado, que existem dentro de uma visão humana, mas que são inexistentes na realidade espiritual.
 
Consideramos algo bom e algo mau dependendo de nossos valores, crenças, de nossa moral, de nossa religião ou de qualquer código que consideremos verdadeiro. Uma doença pode ser considerada algo muito ruim, mal e negativo do ponto de vista humano, mas de uma perspectiva espiritual uma doença pode ser algo extremamente positivo, pois nos liberta de uma série de limitações mentais e abre nossa vida para novas perspectivas. A perda de um emprego pode ser considerada algo péssimo e desastroso, mas para o espírito, é algo sublime e libertador. Não sentimos dessa forma, pois estamos trancados na matéria, mergulhados em ilusões e abarrotados de conceitos sociais e culturais. O fim de um relacionamento pode ser péssimo para a pessoa, mas ótimo para o espírito e para seu avanço espiritual, pois impõe o desapego e a libertação de certas prisões emocionais que cultivamos em relação àquela pessoa. O bem e o mal também são definidos em termos de códigos religiosos, mas nem sempre o que as religiões julgam como mal ou pecaminoso de fato é assim. Cada religião pode ter definições diferentes do que é bom ou mau: a homossexualidade pode ser considerada pecado em algumas formas de cristianismo mais ortodoxas, já no Budismo, a homossexualidade em si mesma não é impedimento no caminho da iluminação.
 
Fora da esfera religiosa, o que é bom para uma pessoa pode não ser para outra. O que é bom para uma época pode não ser para outra. O que é bom numa cultura pode não ser na outra. E assim poderíamos estender ao máximo muitos exemplos que demonstram serem as noções de bem e mal sempre relativas ao sujeito que as observa.
 
O segundo ponto nos mostra o quanto algo considerado mau num momento de nossa vida pode depois se transformado em algo bom e vice versa. Quantas situações que numa época de nossa vida nos pareciam devastadoras e na época seguinte pensamos: “Foi ótimo tal situação ter ocorrido, pois consegui reconstruir minha vida de outra forma”. Ou quando pensamos “Foi bom o término desse relacionamento, pois aquela pessoa não me fazia bem” Ou quando admitimos que “aquele antigo emprego me tomava muito tempo e agora que fui demitido e estou trabalhando em outro lugar, posso me dedicar mais a minha família”. Todas essas situações deixam claro que tudo aquilo que parece ruim, mal, desastroso num certo período de nossa vida, passa a ser encarado como algo bom, positivo e renovador em outro momento. As ilusões de uma época podem ser quebradas pelo que consideramos mal e posteriormente serem tomadas por algo que, no final das contas, foi positivo.
 
São muitas as situações que podem ser más num momento e depois se transformarem em algo bom.
 
Por exemplo:
 
1- A perda num momento pode se transformar num ganho posterior.
 
2- o afastamento de certos falsos amigos pode ser considerado ruim, mas nos faz descobrir os poucos amigos verdadeiros.
 
3- a disciplina paterna pode nos desagradar na infância, mas nos transformará numa pessoa correta na idade adulta.
 
4- os estudos da escola podem ser desgastantes, penosos e chatos, mas serão a chave para a entrada na universidade.
 
5- o fim de um relacionamento pode nos ajudar a encontrar outra pessoa com maior afinidade conosco.
 
6- uma doença pode nos tirar do ritmo estressante do trabalho e nos permitir reavaliar nossa vida e pensar um pouco mais em nós mesmos.
 
7- uma doença também pode nos obrigar a mudar certos hábitos e nos tornarmos uma pessoa mais saudável.
 
8- uma pessoa que nos fere com palavras duras, mas verdadeiras, pode nos abrir os olhos sobre alguma faceta autodestrutiva de nossa personalidade.
 
9- uma mentira descoberta pode nos causar muito mal estar, mas a queda da mentira nos coloca diante da verdade.
 
10- a iminência da morte pode nos tornar mais humanos, pode nos aproximar de nossa família, pode nos ajudar a resolver certas questões em nossa vida, pode nos inspirar à solidariedade, ao amor e à paz.
 
São muitas as situações que nos causam dor, mau estar, cólera, mágoa, tristeza, sofrimento, etc, mas que depois nos elevam, nos abrem os olhos, nos colocam frente a frente com a verdade, nos renovam, ou nos fazem renascer.
 
O terceiro ponto deixa claro que o bom e o mau não vem do prazer ou conforto gerado, mas sim de uma vivência mais real da existência. Isso significa que o ser humano interpreta como sendo bom tudo aquilo que lhe gera prazer, conforto, satisfação, etc. Obviamente, o que é prazeroso nem sempre pode ser considerado bom, pelo contrário: muitas vezes o prazer pode ser um caminho para nossa perdição espiritual e um mergulho mais acentuado nas ilusões do mundo. Por exemplo, um viciado pode fazer uso de uma substância qualquer e sentir um imenso prazer com seu uso. Essa substância pode gerar um deleite corporal, uma euforia emocional, uma viagem interna de puro gozo mental. No entanto, todos sabem que muitas substâncias podem causar vícios químicos e psicológicos, a ponto de tornar a pessoa totalmente dependente. O que é maravilhoso para o viciado após a ingestão da substância, pode se tornar um inferno no futuro. O vício muitas vezes é um caminho sem volta e pode destruir totalmente a vida de uma pessoa. Em outro exemplo, uma pessoa pode gostar muito de fazer sexo e deleitar-se nesses prazeres por bastante tempo. Sempre que desejamos muito uma coisa, como por exemplo o sexo, a tendência humana é sempre a de se fazer um esforço para reproduzir essa mesma experiência prazerosa no futuro. Tudo o que é bom, obviamente, queremos que continue acontecendo e nos gerando aquele prazer. No entanto, muitas vezes não encontramos o prazer da forma como gostaríamos, seja pela ausência de um parceiro, seja por alguma doença que nos incapacite, ou por qualquer outro motivo e isso pode nos causar carência, revolta, insatisfação, desejo reprimido, etc, de modo que o prazer que antes era motivo de contentamento, depois acaba se tornando algo que precisamos muito, que nos falta, que nos cria uma ausência e, da mesma forma, o que antes era bom, passa a ser considerado algo ruim; passa a ser um problema quando o bom não está mais a nossa disposição como antes. Tudo aquilo que nos faz bem e gera prazer, quando não temos, acabamos sofrendo pela falta, e isso nos gera decepção, desgosto, frustração, sensação de fracasso, etc. O que antes era prazer, depois acaba se transformando em dor. E podemos dizer que, quanto maior o prazer, maior será a dor pela ausência do prazer.
 
Por isso, é fato que o bom não está no prazer, posto que se assim fosse, o prazer não geraria a dor da perda do prazer e uma ausência que sempre fica em nosso interior pelos momentos de prazer que não podem mais ser vividos. Por isso, o prazer é sempre algo efêmero, passageiro e ilusório: quem busca o prazer como sendo algo bom vê-se na posição futura inexorável da perda desse bom, e consequentemente, do bom transformar-se em mau, em angústia, em privação. Quando consideramos o bom sempre tendo como fonte os prazeres do mundo acabamos caindo numa posição de erro, posto que o mundo é ilusório e nunca vai nos satisfazer. O ser humano quer sempre mais e mais, e esse “querer mais” é um sofrimento por si mesmo, ainda mais quando o desejo não pode ser saciado e surge a falta. A busca pelo prazer é também uma imensa perda de tempo para o espírito, posto que na vida espiritual não existe nem prazer nem dor, mas sim uma busca pela eterna essência da vida. Por esse motivo, tudo que é bom no mundo não é necessariamente bom para o espírito.
 
O quarto ponto nos mostra como algo que consideramos mau pode ser o agente de nossa transformação. Dentro dessa visão, o mal nada mais é do que o bem ainda não visto, não compreendido ou não reconhecido. Um bom exemplo é a estória da vacina e da criança. O ato de tomar uma vacina com agulha pode ser considerada abominável para a criança, que não compreende a razão de seus pais estarem lhe causando aquela dor. Mas a vacina que a criança toma nada mais é do que o processo de imunização de doenças futuras. A dor da vacina é o livramento de enfermidades que iriam acometer a criança. Enquanto a criança vê a vacina como algo dolorido e sem sentido, o pai vê como a cura e o alívio de problemas futuros. Tanto a criança quanto o pai tem perspectivas diferentes sobre o bom e o mau para a criança. A criança parece correta de seu ponto de vista e o pai está correto também numa perspectiva de maior experiência de vida e conhecimento. Da mesma forma, o que as pessoas veem como mal, sofrido, ruim, catastrófico, difícil, espinhoso nada mais é do que a cura de enfermidades espirituais. O que ocorre quando a criança resiste à vacina? Não há dúvida que o pai vai obriga-la a tomar, pois sabe que é o melhor para ela. Nós somos como essa criança que resiste à vacina que nos conduzirá à cura… Quanto mais nos debatemos evitando o “mal” da vacina, mais prolongamos o sofrimento de forma desnecessária, um sofrimento de agora que será a cura para o nosso espírito no futuro.
 
O quinto ponto nos mostra o quanto o que consideramos mau pode ajudar em nossa libertação e despertar espiritual. A maioria das pessoas desconhece esse fato, mas muitas situações que interpretamos como péssimas, desesperadoras e sofridas nos vem para nossa livramento espiritual. O adulto pode lembrar de sua infância e com alívio reconhecer que: “Foi ótimo quando meu pai me tirou à força do meu quarto, pois eu ficava o dia todo brincando com meus bonequinhos e vivia num mundo que eu mesmo havia criado. Assim que perdi meus bonequinhos, eu sofri muito, chorei, esperneei, mas depois pude sair da prisão do meu quarto e comecei a ir na rua brincar. Assim que fiz isso, tive muito mais liberdade, comecei a brincar com outras pessoas e estava realmente livre, e não preso apenas no meu mundo.” O ser humano atravessa um processo semelhante a essa criança.
 
O mal vem para que a pessoa saia da prisão de sua consciência, e passe a sair do “quarto” de seus limites mentais, correndo livremente pelos “campos infinitos do espírito”. Aqui podemos observar claramente que bem e mal existiam apenas em nossa consciência, mas não na realidade. Bem e mal são estados passageiros que dependem sempre de uma referência limitadora daquilo que é bom e daquilo que é mal. Para o espírito, não há bom nem mau, há experiências que nos fazem despertar.
 
O estar mal é apenas um ponto de vista humano, que não considera uma visão maior e abrangente da história daquela alma. O mal de agora pode se transformar em bem… e o bem de agora pode depois se tornar mal. Mas bem e mal nada mais são do que estados ilusórios que dependem de um observador externo que os caracteriza como tal. Além disso, o mal nada mais é do que o caminho do bem. O mal é como aquele extremo cansaço e desespero ao escalar uma altíssima montanha, mas que nos conduz a uma visão panorâmica do mundo a nossa volta e nos deixa mais próximos do céu. Para a alma há o ser… e apenas o ser; há o atravessar experiências visando seu desenvolvimento. Como tudo é experiência que o faz avançar em espírito, tudo é bom, mesmo que consideremos “mau”.
 
Ninguém deve esquecer que o sofrimento se transforma em benção, as trevas ajudam a acender nossa luz, a dor nos purifica e o ódio se transforma em amor. De igual maneira, a morte, que muitos consideram como a pior coisa da vida humana, não é o fim… mas o começo de uma nova vida.
 
Hugo Lapa
 

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