casamento-21

Sobre o casamento

O escritor brasileiro Rubem Alves escreveu uma crônica muito inteligente, a respeito do tema casamento.
 
Eis suas palavras:
 
Depois de muito meditar sobre o assunto, concluí que os casamentos – relacionamentos – são de dois tipos: há os casamentos do tipo “tênis” e há os casamentos do tipo “frescobol”.
 
Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos, e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.
 
Explico-me:
 
Para começar, uma afirmação de Nietzsche com a qual concordo inteiramente. Dizia ele:
 
“Ao pensar sobre a possibilidade do casamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até sua velhice”?
 
Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.
 
O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola.
 
Joga-se tênis para fazer o outro errar.
 
O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir sua “cortada”, palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar.
 
O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo.
 
Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.
 
O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca.
 
Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la.
 
Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado.
 
Aqui, ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra, pois o que se deseja é que ninguém erre.
 
O que errou pede desculpas, o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos…
 
Em relacionamentos inspirados na ideia do “frescobol”, o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração.
 
Bola vai, bola vem – cresce o amor…
 
Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim…
 
Pensemos nisso. Reflitamos sobre nosso comportamento nos relacionamentos que abraçamos.
 
Juntos, num mesmo jogo, numa mesma existência.
 
O bom jogador será sempre aquele que conhece o companheiro e que, acima de tudo, deseja vê-lo feliz.
 
Através de Roberto Legey

Este post foi lido 5522 vezes!

0 respostas

Deixe um comentário

Quer contribuir com seus comentários?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>